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O planejamento energético em uma era de transitoriedade

2 de novembro de 2010

Infopetro
01/11/2010

O planejamento energético em uma era de transitoriedade

Renato Queiroz

 

O mundo contemporâneo vive sob um contexto de profundas e contínuas mudanças. Praticamente todas as atividades humanas estão submetidas à transitoriedade, entendendo esse termo como um “lugar” pelo qual se passa, mas não se permanece. As tecnologias inovadoras certamente têm grande influência nessa necessidade permanente de mutação.

As organizações que não se renovam continuamente, seja introduzindo novas tecnologias em seus produtos, seja implantando novos processos de gestão, tendem a perder mercado ou a criarem estruturas decisórias “pesadas”  que não respondem aos novos estímulos que vêm do mundo exterior. A criatividade é uma característica desejável nesse ambiente  inovador, pois a repetição das mesmas situações e/ou rotinas levam os profissionais a ficarem contaminados, estagnados em atitudes passivas.

Nesse quadro empresarial de inércia, o comprometimento com o trabalho diminui porque o cotidiano fica em desacordo com um ambiente externo nômade. Em suma pode-se criar  um quadro de insatisfação cujos  resultados desejáveis certamente não serão alcançados.

O contexto de transitoriedade cria incerteza e, sob essa tônica, o exercício de planejar o futuro deve considerar como condição necessária a invenção original, a inovação.

Vale destacar que essa situação não se observa somente nas atividades voltadas ao mundo das corporações. Também nas artes que, ao se servirem de diferentes mídias, muitas vezes levam o espectador a sentir dificuldade para compreender aquele novo meio de expressão artística.

A dificuldade é entender que vivemos no mundo atual sob um sentimento de conforto transitório e que se ficarmos agarrados a uma nuvem de conceitos e experiências, não perceberemos que as oportunidades passaram e a queda pode ser iminente.

O leitor deve estar se perguntando qual a ligação desses parágrafos iniciais com o tema energia. O foco desse artigo é levantar algumas reflexões sobre o dinamismo e inovação do processo de planejamento energético sob esse ambiente de impermanência.

Nesse estado de transitoriedade a construção de cenários energéticos, buscando o que se espera [1] ou o que se deseja [2] no futuro, é uma ferramenta que abre as portas aos formuladores de políticas energéticas. Os cenários são indicações importantes para análises e devem ser monitorados e atualizados, logo após sua conclusão e/ou publicação, de modo a proporcionar respostas rápidas para a tomada de decisões. O processo não pode ser estático.

A velocidade das mudanças criando novas incertezas pode ser de tal ordem que o estado de permanência – das tecnologias ou a presença de novas situações geopolíticas, por exemplo – fique cada vez menor e o poder executivo venha a necessitar de elementos, em tempo curto, para elaborar novas políticas energéticas e, em certas situações, até submetê-las às instâncias legislativas dentro de um quadro democrático. Daí a importância de um planejamento dinâmico.

Michel Godet, o mestre da construção de cenários exploratórios, nos ensinou em seus livros e palestras que as simulações de um futuro previsto sofrem a influência de quem as elabora. Daí o cuidado que o Estado deve ter ao compor suas equipes  que formularão os cenários e as estratégias do Estado para futuros possíveis e desejados.

“Todos os que pretendem predizer ou prever o futuro são impostores, pois o futuro não está escrito em parte alguma, ele está por fazer”. Michel Godet

Nesse entendimento é importante que os formuladores das políticas energéticas tenham em suas mãos uma visão consistente e plural do futuro com um amplo cardápio de variáveis qualitativas. Os tecnocratas tendem a priorizar variáveis quantitativas como uma âncora que permite maior segurança às suas ações.  Mas cabe mais uma vez explicitar que se desenvolvermos cenários prospectivos para longos horizontes, o estado de transitoriedade pode desatualizar rapidamente seus resultados e a  formulação de novos cenários exigirá um tempo que pode estar em desacordo com o tempo das decisões sob mudanças. Em adição, é importante a elaboração de cenários tendenciais e  também normativos, para  que o governo trace as suas  estratégias para atender à demanda energética das futuras gerações.

O estabelecimento das  macro diretrizes dos cenários é um outro  fator relevante para que os atores envolvidos no setor energético conheçam os princípios que norteiam o planejamento. Citando como exemplos, os seguintes princípios :

i) Diversificar a matriz de oferta de energia  para atender ao crescimento econômico independentemente da fonte de energia.

ii) Priorizar a segurança energética com menores custos tecnológicos. Nesses dois primeiros exemplos a política ambiental da nação interage fortemente com a política energética.

iii) Desenvolver esforços na busca de  independência de tecnologias avançadas na geração de energia. Isso exigirá também que outras políticas estejam na mesma linha. A política de ciência e tecnologia tem que priorizar investimentos em  P&D&I – Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação.

iv) Gestão energética eficiente da demanda futura de energia. Novamente é necessária uma interação da política energética com outras políticas como, por exemplo, a industrial.

Deve ficar explícito que a  política energética envolve necessariamente interações com outras políticas públicas. O processo de planejamento energético é integrado.

Os organismos e empresas do setor energético, que têm tradição em exercícios de prospecção no longo prazo, ao fazerem seus cenários energéticos nos últimos anos certamente não consideraram alguns fatos listados a seguir, entre outros: as descobertas do pré-sal no Brasil com  perspectivas significativas de oferta de gás e petróleo ; o aumento na produção de gás não convencional no mundo, o que  deve  trazer fortes mudanças ao mercado mundial de  gás; a forte ascensão de classes mais pobres nos BRICS ao mercado consumidor com perspectivas de crescimento acelerado da demanda de energia.

Esses são alguns exemplos que mostram que as rápidas mudanças exigem a capacidade de formulação de cenários normativos sem restrições de hipóteses criativas, buscando minimizar o tempo de desatualização dos mesmos.

Os cenários energéticos não são exercícios acabados, mas instrumentos de interação entre o Estado e a Sociedade, capazes de receber continuamente novos subsídios que  reflitam  as complexidades e as rupturas de um mundo inovador. As formulações de tendências devem ser estratégicas, procurando incorporar novas premissas que emergem durante a sua implementação.

Enfim, transitoriedade  é  um estado de movimento permanente a que o mundo está submetido. Os governos e organizações, ao montarem suas estruturas de planejamento  energético de longo prazo, têm que ter essa percepção, montando quadros de cunho técnico especializado, com  uma visão de Estado e, se possível, dedicados exclusivamente aos estudos prospectivos.

Essas são características relevantes de uma equipe que tem que ser treinada a  compreender as diferentes formas que as condições competitivas da indústria da  energia  podem assumir e, sobretudo, ter condições de enxergar o futuro à luz das  implicações estratégicas de novas incertezas que surgem com muita rapidez.

Com isso, um país como o Brasil, rico e complexo, que assumiu uma  importante posição, nos últimos anos, no  cenário global, terá a capacidade de se adequar rapidamente às novas  realidades geopolíticas, reavaliando suas consequências no setor energético. Dessa forma os poderes decisórios dos governos poderão realizar ajustes nas rotas de  suas políticas públicas, permitindo a construção de um futuro desejado para a nação e não imposto pelas circunstâncias externas.


[1] Cenários possíveis ou prováveis, elaborados através de simulações de certas condições iniciais, sem que seja assumida qualquer opção ou preferência por um dos futuros configurados.

[2] Cenários normativos ou  desejados, exprimindo um desejo ou compromisso em relação a determinados objetivos.

 

http://infopetro.wordpress.com/2010/11/01/o-planejamento-energetico-em-uma-era-de-transitoriedade/

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