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Pequenas hidrelétricas ameaçam a construção de hidrovias

13 de outubro de 2010

O Estado de S.Paulo
13 de outubro de 2010

Novas usinas condenam hidrovias

Modelo de hidrelétricas sem reservatório exige a construção do dobro de eclusas comparado ao modelo antigo, com alagamento

Renato Andrade, Leonardo Goy

BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

A solução encontrada por técnicos em engenharia do setor elétrico para construir hidrelétricas na Amazônia, sem a necessidade de grandes alagamentos e pânico entre ambientalistas vai dificultar a implantação de hidrovias na região.

Os reservatórios gigantes, utilizados durante anos na construção de usinas, acabavam “corrigindo” as corredeiras e quedas d”água, o que facilitava a navegação. Sem eles, a passagem de barcaças com carregamentos só será feita com a construção, em alguns casos, de um número quase três vezes maior de eclusas – espécie de comporta que permite embarcações subirem e descerem os rios.

Para contornar as barreiras ambientais e explorar a capacidade de geração de energia nos rios amazônicos, o setor elétrico abandonou o velho modelo de construção de hidrelétricas e passou a desenvolver projetos conhecidos como usinas fio d”água. Essa nova forma busca concentrar o fluxo do rio para movimentar as turbinas, evitando alagamento de grandes áreas.

A hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu (PA), é um exemplo de usina fio d”água. Na década de 70, quando começou a ser estudado, o empreendimento com 11.233 megawatts (MW) de potência resultaria no alagamento de área de 1.200 quilômetros quadrados, o equivalente a mais de dois terços da cidade de São Paulo. Com as mudanças no projeto, a área alagada caiu para 516 quilômetros quadrados.

As cinco usinas que o governo pretende construir no Rio Teles Pires (MT) até 2016 também serão feitas pela nova modelagem. Isso vai postergar mais uma vez a construção da hidrovia Teles Pires-Tapajós, o que desagrada produtores rurais da região.

Segundo Luiz Antônio Pagot, diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), se o modelo antigo de usina fosse usado em Teles Pires, o governo teria de construir seis hidrelétricas, com uma eclusa ligada a cada projeto, para garantir a navegabilidade dos 1,4 mil quilômetros entre a foz do Tapajós e o município de Nova Canaã do Norte (MT).

Pelo novo modelo, o número de eclusas a serem construídas para garantir a navegabilidade subirá para 14. “Esse é o problema do fio d”água. Acrescenta custo. É preciso fazer mais eclusas, trabalhar mais os rios, fazer derrocagem (retirada de pedras), canais de navegação”, diz Pagot.

Estudos preliminares indicam que, para garantir a navegação do Teles Pires seriam necessários cerca de R$ 14 bilhões em investimentos, ou seja, R$ 1 bilhão para cada 100 quilômetros de rio. O problema é que o potencial de carga a ser transportada é de, no máximo, 5 milhões de toneladas por ano.

Prioridades. Apesar da vontade de aumentar o transporte de cargas pelos rios, o investimento em rodovias e ferrovias ainda está no topo da lista de prioridades do governo. O potencial de navegação no País é de 63 mil quilômetros, mas só 20,6% são usados. Segundo estimativas da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), as hidrovias respondem por 11% das cargas transportadas pelo País, enquanto as rodovias abocanham 60%.

“Não temos recursos para ficar esbanjando e o cobertor é curto”, diz Pagot. “Dar condições de navegação para um rio através de eclusas, barragens, derrocamento e não ter carga para transportar não faz sentido.”

A importância das hidrovias também pesa na hora de decidir onde investir. Se o investimento estimado para Teles Pires fosse aplicado no Tietê-Paraná, a quilometragem de navegação no complexo saltaria dos atuais 700 quilômetros para 2,2 mil quilômetros e o volume de carga transportada passaria de 5 milhões de toneladas/ano para 30 milhões. O Tietê-Paraná beneficia regiões em cinco Estados. “Talvez até 2018 a gente esteja com a nova hidrovia do Tietê-Paraná pronta e até 2030 com Teles Pires-Tapajós”.

MUDANÇA

Usinas antigas
Os grandes reservatórios das hidrelétricas construídas no passado ajudavam a dar condições de navegabilidade aos rios, pois as áreas alagadas corrigiam as corredeiras e quedas d”água

Fio dӇgua
Para diminuir os impactos ambientais, o governo decidiu construir as novas usinas no regime chamado fio d”água, que reduz o alagamento das áreas

Rio Teles Pires
Pelo modelo antigo, ao construir a Hidrelétrica Teles Pires, o governo teria de levantar seis eclusas para permitir a navegabilidade do rio. Com o regime fio d”água, o número de eclusas sobe para 14

Investimentos
De acordo com estudo preliminares, para tornar o Rio Teles Pires navegável, o governo teria de investir algo em torno de R$ 14 bilhões, valor bem maior que o da construção de uma das usinas do Rio Madeira

 

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101013/not_imp623994,0.php

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Comentários do blog sobre esta polêmica

 

É interessante lembrar ao leitor que as hidrovias são a melhor forma de se reduzir o consumo de combustíveis fósseis utilizados nos meios de transporte. No Brasil mais de 80% do diesel consumido no país é utilizado no setor de transportes, sendo que o transporte rodoviário consome 97% do volume total deste combustível utilizado no transporte.

 

Uso de Diesel por setor da economia brasileira

Brasil: Uso de Diesel por setor da dos Transportes

MOURAD, Anna Lúcia (2006). Considerações econômicas e técnicas sobre o uso de óleos vegetais combustíveis como substituto de óleo diesel. 6o Encontro de Energia no Meio Rural, 2006, Campinas,SP, Brasil. [online].:<http://www.proceedings.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=MSC0000000022006000100041&lng=en&nrm=iso> .

 

 

Também é interessante lembrar que os custos de construção e manutenção de hidrovias é muito inferior ao das ferrovias e rodovias. Além disso, por consumir menos combustíveis fósseis, o transporte hidroviário é o que emite menos gases carbônicos (CO e CO2).

 

Infelizmente, grupos ambientalistas radicais vêm lutando para inviabilizar a construção de novas grandes hidrelétricas que poderiam servir simultaneamente à geração de energia elétrica e comportar eclusas para viabilizar o transporte hidroviário. Na prática o resultado desta lógica contraditória é que o Brasil se vê privado simultâneamente de energia elétrica renovável e de transporte hidroviário, mantendo a dependência de fontes de energia mais poluentes e não renováveis e de meios de transporte que gastam mais combustível e poleum mais, como o rodoviário.


Para resolver este impasse, tudo indica que o governo terá que rever a política de indenização e reassentamento das populações atingidas pela construção de novas hidrelétricas. Enquanto estas populações locais não forem diretamente beneficiadas pela construção de grandes hidrelétricas, dificilmente irão apoiar a implementação destas obras. As hidrelétricas podem beneficiar diretamente as populações deslocadas caso um novo padrão de planejamento seja implementado. A população deslocada tem que ser beneficiada com um conjunto de políticas públicas e além das tradicionais indenizações financeiras. De preferência, a população deslocada deveria ter prioridade de reassentamento na região da construção da barragem, podendo optar por moradias urbanas ou rurais. Cada nova hidrelétrica poderia ser construída acompanhada da construção de uma nova cidade planejada, na área contígua à represa, contando com toda a infra-estrutura básica de esgoto e água encanda, asfalto e energia elétrica, serviços básicos como educação e saúde, e um projeto de porto ao lado da eclusa com pólo industrial (para gerar emprego e renda), utilizando no local  uma parte da energia gerada. Projetos de qualificação profissional teriam que ser integrados a estes programas, além de linhas de crédito e financiamento subsidiado pelo governo para viabilizar pequenos e médios empreendimentos sustentáveis na região, incluindo agricultura irrigada e piscicultura com a água da represa, além de projetos envolvendo ecoturismo. Populações que hoje vivem excluídas passariam a ter acesso à água limpa,  eletricidade, emprego, renda e opções de lazer, que não teriam antes da construção da hidrelétrica.

Um projeto integrado de desenvolvimento local, com geração de emprego e renda em torno da área de construção de cada nova hidrelétrica, é essencial para dirimir as resistências criadas por grupos radicais, muitas vezes anti-nacionais, que se utilizam do discurso ambiental para criticar a energia hidrelétrica, a mais barata dentre todas as fontes de energia renovável dominadas pela humanidade.

Vídeo: As eclusas de Tucuruí

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