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Geopolítica da Ásia Central: das disputas tradicionais aos projetos de Integração Regional

13 de agosto de 2010

International Herald Tribune
13/08/2010

Os novos caminhos da seda na Ásia

Parag Khanna

Ulaanbaatar (Mongólia)

Deborah Weinberg

O destino dos enormes depósitos de lítio descobertos recentemente no Afeganistão não deve ser diferente daquele dos outros recursos naturais dos países da Ásia Central que não têm saída para o mar: explorados pelo Ocidente e eventualmente controlados pelo Oriente.

A madeira siberiana, o minério de ferro da Mongólia, o óleo cazaque, o gás natural do Turcomenistão e o cobre afegão já são canalizados diretamente para a China por meio de uma rede recentemente construída para o Oriente que está alimentando o rápido desenvolvimento da maior população do mundo.

O investimento adiantado dos chineses na construção de estradas, ferrovias e dutos pela Ásia Central cria uma oportunidade para o Ocidente – e para a própria região. Ao invés de entrar em uma competição de alto risco pelos recursos valiosos da Ásia Central – no que seria uma nova rodada do Grande Jogo do século 19- o Ocidente deveria apoiar os passos iniciais da China, estimulando os governos locais a expandirem as exportações têxteis e agrícolas e evitarem a maldição de recursos que arruína muitas nações em desenvolvimento que têm apenas uma commodity.

A China pavimentou o caminho para finalmente abrir o interior da Ásia Central, e o Ocidente deveria somar a esse sucesso, criando um novo Caminho da Seda Oriente-Ocidente movido pelo petróleo.

Os dutos do Mar Cáspio pelo Cazaquistão, o gasoduto recentemente aberto do Turcomenistão via Uzbequistão e Cazaquistão e outras rodovias e ferrovias que devem passar pela Rússia e atingir o porto de mar profundo de Guwadar no Paquistão fazem parte do esforço da China de transformar a Ásia Central de uma região de Estados tampão em um corredor entre o Ocidente e o Oriente. Os líderes de Pequim olharam com acerto para a Eurásia como uma fonte rica de recursos naturais para fomentar sua próspera economia.

Em vez de ver os movimentos da China na Ásia Central -e na África- como uma forma suspeita de neocolonialismo, os países ocidentais deveriam se focar em como usar as rodovias e ferrovias construídas pelos chineses para obter sucesso em sua própria estratégia regional. Isso significa cooperação em vez de competição. Isso também pode acontecer por meio de pesado investimento em infraestrutura, construção de novas linhas no mapa que transcendem fronteiras arbitrárias e trazem verdadeiro valor econômico.

Os mais essenciais desses projetos são os gasodutos ainda não construídos entre o Turcomenistão, Afeganistão, Paquistão e Índia (Tapi) e o entre Irã, Paquistão e Índia (IPI). Com respeito ao primeiro, a incapacidade do Ocidente de garantir a segurança do Afeganistão atrasou o valioso empreendimento que tem investidores interessados e o financiamento do Banco de Desenvolvimento Asiático. Ainda assim, qual prioridade poderia ser maior do que criar empregos para afegãos na construção deste corredor de energia, baixando os custos de combustível para o Afeganistão e Paquistão que têm necessidade de energia: a estratégia militar no Afeganistão deveria incluir o fornecimento de segurança para projetos de desenvolvimento econômico como este duto.

Quanto ao IPI, o Irã e o Paquistão assinaram um grande acordo recentemente para avançar a construção -apesar das objeções norte-americanas.

O que Washington deve entender é que isolar o Irã, uma ponte central entre o Oriente Próximo e Ásia Central, é fútil. Europeus e chineses compreendem isso e suas prioridades -tais como o gasoduto europeu Nabucco e as estradas financiadas pelos chineses pelo norte do Afeganistão para o Irã -tem maior chance de estabilizar a região ao mesmo tempo que acalma os laços com o Irã.

Explorar e administrar recursos que os governos locais não têm os meios de extrair é uma situação em que todos saem ganhando. O Afeganistão hoje tem pouco no setor de mineração, mas empresas chinesas, australianas e russas podem liderar o caminho. Foi isso que aconteceu na Mongólia por décadas, gerando uma bonança de exportação mineral e crescimento econômico rápido. Mas a Mongólia também usou o conhecimento ocidental, copiando o modelo da Noruega para estabelecer um Fundo de Desenvolvimento Nacional e distribuir parte dos lucros minerais para as pessoas. Além disso, com a contratação do economista proeminente peruano Hernando de Soto, um especialista em direitos de propriedade e desenvolvimento de pequena escala, o lugar da Mongólia no novo Caminho da Seda ficou assegurado.

Nem a China nem a Rússia veem mais a Ásia Central como seu quintal exclusivo. Ao contrário, os dois países temem que o Ocidente não esteja fazendo o suficiente nessas áreas, onde tem um forte histórico. Lembre-se que foi a liderança visionária da Chevron junto com embaixadores americanos aventureiros que tornaram o gasoduto Baku-Tblisi-Ceyhan uma realidade, apesar do desastre pós-soviético no Cáucaso.

As tropas ocidentais na região, particularmente as forças da Otan no Afeganistão e as várias parcerias e acordos que têm com os países locais, devem se focar ainda mais em proteger os projetos de extração e infraestrutura que a China está disposta a financiar. Isso já está acontecendo na mina de Aynak e deve se estender para os novos depósitos de lítio que a China precisa para produzir os telefones celulares e baterias de carros elétricos.

Enquanto a infraestrutura chinesa serpenteia pela Ásia Central, os entrepostos do Golfo, como Dubai, podem servir cada vez mais como conduítes para os produtos asiáticos centrais para a Europa e América. Se o Ocidente suspendesse todas as tarifas sobre essas exportações, geraria uma diversificação das economias, evitando a dependência das indústrias extrativistas. Também promoveria o emprego em regiões sem recursos energéticos. O resultado seria as duas coisas que essa região sem saída para o mar mais precisa: estabilidade e conexão.

Basta de “triângulos estratégicos” do Grande Jogo – EUA, China e Índia; EUA, Índia e Afeganistão ou EUA, Irã e China- que não são nada além de um vício em uma região que, em seus melhores tempos históricos, era aberta a todas as direções. Por séculos a passagem de Khyber foi um portão para invasores e contrabandistas e agora serve como uma rota de suprimento para as forças americanas no Afeganistão. Mas em vez de máfias que servem aos militares, o que deveríamos ver nessas estradas são caravanas civis coloridas, com buzinas musicais.

Finalmente isso se tornou possível, graças ao investimento chinês e à recém encontrada riqueza do Oriente Médio. O Caminho da Seda sempre foi uma estrada de mão dupla de troca mutualmente benéfica. A Linha Durand não deu quaisquer benefícios em meio século. O Caminho da Seda movido pelo petróleo poderia fazer isso amanhã.

* Parag Khanna é pesquisador da Fundação Nova América, atuou omo consultor de política externa para a campanha de Barack Obama e participou, por seis anos, do Conselho de Relações Internacionais do Foro Econômico Mundial de Genebra/Davos.   É autor do livro “The Second World: Empires and Influence in the New Global Order”, o “O Segundo Mundo: Impérios e Influência na Nova Ordem Mundial” (lançado no Brasil pela editora Intrínseca).


http://noticias.bol.uol.com.br/internacional/2010/08/13/os-novos-caminhos-da-seda-na-asia.jhtm

One comment

  1. Obrigada por tudo de início, eu estudo sempre por aqui e aprendo bastante.
    Gostaria que não parassem de fazer esses resumos explicados com imagens e assuntos mais explicitos.
    Com isso eu aprendo compreendo, e até posso ensinar aos meus colegas de estudo.

    Sem mais para o momento:
    Dyanne Araújo.



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