h1

O programa nuclear “secreto” da Arábia Saudita

29 de junho de 2010

Enquanto os Estados Unidos e seus aliados da OTAN utilizam todos os meios diplomáticos e político-estratégicos para convencer o mundo da ameaça nuclear representada pelo Irã, países muito mais perigosos desenvolvem silenciosamente programas nucleares sem qualquer vigilância internacional, como é o caso da Arábia Saudita.

A Arábia Saudita é o berço ideológico do fundamentalismo islâmico moderno, nascido e gestado nas madrassas mais radicais, espalhadas no velho reino dos sauds. Foi ali que  fundamentalismo islâmico wahhabi criado na Arábia Saudita, encontrou fértil terreno para se desenvolver e tornar-se ainda mais radical no século XX, sob a influência do egípicio Sayed Qutb. Curiosamente, os países que adotaram tal versão (ou seita) fundamentalista e sectária do Islã geralmente eram governados por regimes totalitários,  verdadeiras ditaduras protofascistas.

Via de regra, o conservadorismo religioso e fundamentalista foi incentivado pelas elites locais como forma de conter os partidos e grupos políticos laicos e progressistas (nacionalistas, terceiromundistas ou socialistas), que defendiam medidas desenvolvimentistas e modernizadoras na região. Todas essas formas de desenvolvimento ou modernização eram vistas como ameaçadoras pelas elites mais conservadoras da região.

Na Arábia Saudita a monarquia protofascista sempre teve dificuldades para se sustentar em um ambiente de tensões sociais extremas, ampliadas pelas desigualdades aberrantes ali existentes, e por um processo de rápida inserção de sua elite no mundo ocidental capitalista. Essa inserção rápida namodernidade provocou fortes reações ultraconservadoras, que, por sua vez, forjaram a aliança do regime totalitário com os fundamentalistas conservadores. Foi justamente nesta versão radicalmente conservadora e fundamentalista da religiosidade local, que o governo ditatorial da família Saud encontrou apoio para continuar submetendo o povo sob seu regime protofascista, mantendo a governabilidade do país pela força, medo, coersão e misticismo radical. Esses regimes totalitários ultra-conservadores receberam ainda apoio externo, dos EUA e de países europeus, durante toda a Guerra Fria, pois as potências capitalistas muitas vezes passaram a ver o fundamentalismo fascista como um mal menor na luta contra a União Soviética.

Hoje, a Arábia Saudita é uma ditadura onde a elite vive em meio a uma abundância indescritível, alimentada pelo controle do clâ Saud sobre as reservas de petróleo da nação, que são consideradas reservas privadas da família real. Enquanto isso, mais da metade da população vive na miséria, condenada ao analfabetismo, sem acesso a educação ou saúde públicas (apenas escolas e hospitais religiosos), com um índice de desemprego de cerca de 35 a 40%.

A resistência à qualquer mudança ou reformas político-econômicas fes com que a Arábia Saudita se tornasse um país ainda mais conservador. Costumes feudais voltaram a ser valorizados e, em pleno século XXI, o país contunua a aceitar a escravidão de mulheres e considera que as mulheres estupradas são culpadas por “provocarem” os homens. O sistema “judiciário” saudita condena todos os anos, dezenas de mulheres estupradas à prisão e chicoteamento, como se não fossem vítimas mas culpadas pelos crimes de seus próprios algozes.

O modelo de “tratamento das mulheres” defendido pelo Taleban,  e tão criticado no “Ocidente”, foi claramente inspirado no modelo saudita, embora este último raramente seja lembrado. Até porque, durante as últimas décadas, os sauditas vêm financiando madrassas em todo o Oriente Médio, (especialmente no Afeganistão), especializadas na difusão  de uma interpretação ultraconservadora, dogmática e sectária das leis religiosas, que afronta a dignidade humana e os princípios humanistas do próprio Islã.

Especificamente no Afeganistão, os sauditas ajudaram a finaciar a criação da Al Quaeda nos anos 1980, para combater os “terríveis” comunistas “ateus” da URSS, resultando em uma longa guerra civil que destroçou o país, deixou marcas de sangue e violência  na sociedade afegã, irreparáveis até os dias de hoje.

Durante os anos 1990 os sauditas continuaram financiando redes terroristas, incluindo a Al Qaeda e o Taleban no Afeganistão, expandindo suas conexões terroristas para outros continentes, quando passaram a atuar enquanto rede “global” (Bósnia, Kosovo, Chechênia e Cáucaso, Somália e vastas regiões da Ásia Central, Sinkiang, Paquistão e mais recentemente no Iraque).Os Estados Unidos nunca se incomodaram com a atuação saudita, enquanto os alvos do terrorismo eram governos rivais (Iugoslávia, Somália, Rússia, China). Mesmo após os atentados contra os EUA de 11 de setembro de 2001, o governo estadunidense não rompeu com a conexão saudita, que continuou a financiar grupos terroristas na Chechênia (Rússia) e no Sinkiang (China), dentre outros países da Ásia Central (Tadjiquistão, Quirquistão).

Recentemente, voltaram a proliferar denúncias de que milionários sauditas, inclusive membros da família real, continuam financiando o terrorismo fundamentalista no Iraque e Afeganistão:

Concil on Foreign Relations, 14/09/2007, “Saudi Arabia: Terrorist Financing Issues

Los Angeles Times, 29/10/2001, “U.S.: Money trail leads to Saudi

The Huffington Post, 02/04/2008,  “US: Saudi Arabia Is Prime Source Of Terror Funds

Los Angeles Times, 30/09/2009, “Saudi Arabia-based charities still funding terrorists, GAO says

Lauderin Money, 20/04/2010, “Terrorism funding remains a constant concern

The Guardian, 25/06/2010, “West’s financial system must stop flow of dirty money

The Times, 31/05/2010, “Terror link alleged as Saudi millions flow into Afghanistan war zone

Pode-se considerar, sem grandes reservas que o fascismo-religioso saudita tornou-se uma das maiores ameças à estabilidade no Oriente Médio e Ásia Central, ameaçando claramente os vários povos da região.  A elite saudita ataca seu povo diariamente, jogando a maioria da sua população na miséria absoluta, enquanto desfruta da maior renda petrolífera do mundo. Essa elite usa do totalitarismo e da opressão religiosa para se manter no poder, humilhando a dignidade de suas mulheres e financiando o terrorismo no Iraque e no Afeganistão. Se esta elite não assume o mínimo de responsabilidade em relação ao seu próprio povo ou aos vizinhos, o que se pode esperar do crescente envolvimento de magnatas sauditas com o financiamento do terrorismo na região?

Entretanto, mesmo diante de tudo isso, os EUA e outros países europeus vem oferecendo apoio ao programa nuclear saudita e oferecendo acordos de transferência de tecnologia nuclear para este país, ao longo dos últimos anos:

Haaretz, 16/08/2008, “Bush offers Saudis nuclear power in exchange for more oil

Global Security, 18/05/2008, “Bush in Saudi Arabia for Nuclear Deal

Arabian Business, 17/04/2010, “Saudi Arabia sets up nuclear energy science centre

Arab News, 17/06/2010, “Kingdom may enrich uranium for nuclear plants

Essa situação compromete seriamente o discurso dos Estados Unidos e demais potências da OTAN em defesa da não proliferação nuclear. Como é possível que tantas pessoas continuem acreditando nas boas intensões deste discurso em prol do “Apartheid Tecnológico”, quando este se volta apenas contra os países que não são aliados dos EUA, e seus aliados, mesmo aqueles que financial o terror, podem continuar desenvolvendo programas nucleares secretos? Porque os Estados Unidos insistem em atacar o Irã, único país muçulmano da região que sempre viu a Al Qaeda como inimigo natural?

Tudo indica que a agenda da política externa dos EUA continua “sequestrada” pelos neoconservadores americanos, que tanta simpatia têm pelo fundamentalismo religioso de seitas cristãs sectárias do “Ocidente,” e pelo visto, simpatizam também com outros fundamentalismos totalitários e sectários pelo mundo afora. Resta saber se estas “simpatias” são apenas ideológicas ou se existem interesses ainda mais nefastos por detrás das alianças internacionais estabelecidas pelos neoconservadores norte-americanos .

__________________________________________

__________________________________________
Arabian Business
Saturday, 17 April 2010

Saudi Arabia sets up nuclear energy science centre

by Tamara Walid & Reem Shamseddine


Top oil exporter Saudi Arabia may mine and enrich uranium to fuel power plants if it embarks on a civilian nuclear energy programme, a consultant preparing a draft nuclear strategy for the kingdom said on Wednesday.

The United Nations has just slapped a fourth round of sanctions on Saudi regional rival Iran for refusing to halt enrichment, which with further refinement can yield materials for weapons.

Western powers fear Iran is using its nuclear programme to develop weapons, while Tehran says it needs power generation to meet rapidly rising demand.

Related news:

http://www.arabianbusiness.com/586178-saudi-arabia-sets-up-nuclear-energy-science-centre
__________________________________________


__________________________________________

16 May 2008

Bush in Saudi Arabia for Nuclear Deal

By Scott Stearns

Riyadh

U.S. President George Bush is in Saudi Arabia for talks with King Abdullah marking the 75th anniversary of diplomatic relations between Washington and Riyadh. VOA White House Correspondent Scott Stearns reports, the two leaders are expected to reach agreement on civilian nuclear technology.

President Bush and King Abdullah inspected a military honor guard in Riyadh before private talks at the king’s horse farm outside the capital.

They will discuss a deal to help the kingdom develop civilian nuclear power for medical and industrial uses as well as generating electricity. The agreement provides access to safe, reliable fuel sources for nuclear reactors and demonstrates what the Bush Administration calls Saudi leadership as a non-proliferation model for the region.

The agreement expands cooperation to better safeguard the kingdom’s vast oil reserves and its pipeline distribution system, as well as borders.

As part of the deal, Saudi Arabia joins a global initiative to combat nuclear terrorism to enhance the protection of nuclear systems and improve its ability to detect and confiscate illegally held nuclear material.

The kingdom also joins an international alliance to combat the proliferation of weapons of mass destruction and related materials, including delivery systems.

President Bush says he will ask King Abdullah to boost Saudi oil production to drive down record energy prices. A similar request in January was denied as Saudi output has held steady at just over 8.5 million barrels a day.

Relations between Washington and Riyadh are strained by the war in Iraq. Unlike the first Gulf War when Saudi Arabia boosted oil production and helped pay for the liberation of Kuwait, the kingdom opposed America’s 2003 invasion to topple Saddam Hussein.

U.S. National Security Advisor Steve Hadley says it remains a partnership of common interests.

“So I think the relationship is in pretty good shape. That’s not to say that there weren’t stresses – obviously the Iraq war was a stress, and managing the situation, subsequent. There are still issues, I’m sure, the Saudis raise with us. We have issues that we raise with them,” said Hadley. “We would like to see them offering greater diplomatic support for Iraq, embracing Iraq as a part of the Arab family. They have not gone as far as we would like on that score.”

Relations also soured following the 2001 terrorist attacks in New York and Washington in which 15 of the 19 hijackers were Saudi.

John Alterman directs the Middle East Program at the Center for Strategic and International Studies, a public policy research group in Washington.

“This relationship has been unalterably changed partly by the events of September 11, partly by what’s happened in Iraq, partly by a Saudi sense that the United States isn’t nearly as competent as they thought,” said Alterman. “And while there is no alternative to the United States, there is suddenly a need to hedge against U.S. incompetence. That changes the whole way these meetings go, and it changes what happens when the U.S. president says I really need you to do this.”

President Bush leaves Saudi Arabia Saturday for Egypt and separate talks with President Hosni Mubarak as well as Afghan President Hamid Karzai, Jordanian King Abdullah, and Palestinian President Mahmoud Abbas.

http://www.globalsecurity.org/wmd/library/news/saudi/saudi-080516-voa01.htm



Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: