h1

Rússia e Noruega fecham acordo sobre zona petrolífera disputada a 40 anos no Mar de Barents

30 de abril de 2010

Geopolítica do Petróleo

30/04/2010

Rússia e Noruega fecham acordo sobre zona petrolífera disputada a 40 anos no Mar de Barents

Lucas Kerr de Oliveira


Desde pelo menos os anos 1970, que Noruega e Rússia (na época URSS) disputam o controle da região localizada no Mar de Barents, próxima ao Ártico, área com grande potencial petrolífero e gasífero.

Zonas Econômicas Exclusivas no Ártico, áreas reivindicadas e disputas. Fonte: AFP

Considerando que entre 20 e 25% das reservas de hidrocarbonetos fósseis está potencialmente localizada na zona do Ártico, a delimitação da Zona Econômica Exclusiva nesta região torna-se, com frequência, alvo de inúmeras controvérsias, que se ampliaram significativamente ao longo da atual década.

Felizmente, neste caso, ao invés do aprofundamento do conflito, assistimos a um acordo de cooperação bilateral que definiu a divisão da zona disputada entre Rússia e Noruega, com a participação de empresas petrolíferas semi-estatais de ambos os países.

Potencial Petrolífero de região do Ártico segundo o US Geological Service

O Presidente da Rússia, Dimitri Medvedev chegou a convidar publicamente a empresa semi-estatal norueguesa Statoil, a cooperar em novos empreendimentos com a empresa russa Gazprom, agora na zona anteriormente disputada, de cerca de 176 mil quilômetros quadrados. Nesta região, onde já ocorre a extração de gás natural, a prospecção deve ser ampliada agora, sob o novo acordo internacional.

Este acordo tem um significado estratégico, já que outras áreas do Ártico vêem sendo reivindicadas por Rússia, Noruega, Dinamarca, Canadá e Estados Unidos, sem nenhum acordo formal até o momento, e permanece significativo o potencial para novas disputas.

Reivindicações territoriais - ZEEs no Ártico

Dentre as áreas mais complicadas, talvez estejam as zonas em torno do Estreito de Bering, na fronteira norte entre as atuais Zonas Econômicas dos Estados Unidos e Rúsia, respectivamente ao norte do Alaska e do distrito de Chukotka  (Чукотский)  na Rússia Oriental.

Pretensões territoriais marítimas dos Estados Unidos no Pacifico e Ártico

Novas disputas pelo Ártico

Um dos indicadores deste potencial para novas disputas é que em março de 2009, a Rússia chegou a anunciar a intenção de criar uma nova força militar especial para a região do Ártico (O Estado de S. Paulo, “Rússia quer criar força militar especial para o Ártico”, 27;03/2009).

Ao mesmo tempo, o governo russo pretende terminar um novo levantamento geológico oceanográfico (até 2011) da região reivindicada pelo país no Ártico, para entrar com um novo pedido de reconhecimento da expansão de seu mar territorial na região junto à Comissão da ONU responsável pela delimitação dos limites marítimos. Isto porque o pedido similar anteriormente feito pela Rússia em 2001, foi negado pela Comissão de Limites da Plataforma Continental da ONU. Simbolicamente a Rússia já havia, até mesmo, fixado uma bandeira no fundo do leito do mar da área reivindicada no Ártico, utilizando-se de minisubmarinos robôs.

Entretanto não é apenas a disputa pelo controle de reservas petrolíferas potencialmente gigantescas (na escala de cvárias dezenas ou até centenas de bilhões de barris), que torna a região do Ártico mais “tensa” ou conflituosa.

O Ártico é alvo de disputas estratégicas desde a época da Guerra Fria, quando Estados Unidos e União Soviética instalaram uma série de bases e estações de vigilância com grandes radares de arranjo fásico na região, pretendendo identificar antecipadamente possíveis lançamentos de míseis balísticos ou ataques aéreos por parte do adversário.

Sistema de radares americanos construídos durante a Guerra Fria para vigiar o espaço aéreo do Ártico

A militarização do Ártico na Guerra Fria foi intensa e ambas as superpotências realizavam constantes exercícios militares  na região. No início dos anos 2000, a tensão em torno do Ártico voltou a crescer, após a retomada do projeto americano de construção de um “escudo anti-mísseis”, pretendendo alcançar um novo patamar de superioridade nuclear, ou talvez, até mesmo a supremacia nuclear (ver artigo de Fabrício Ávila, José Miguel Martins e Marco Cepik, , sobre esta questão).

Acrescentou-se a isto a descoberta de novas reservas petrolíferas na região e o derretimento parcial de calotas polares, que facilitariam o estabelecimento de uma nova rota marítima entre Europa e Leste Asiático, pelo norte do continente eurasiático.Por enquanto é uma rota temporária, viável no verão, mas a perspectiva de que esta venha a se tornar permanente no futuro – caso as previsões mais pessimistas a respeito do “aquecimento global” se compram -, amplia ainda mais os interesses econômicos pelo controle do Ártico.

Nova rota marítima pelo Ártico

Somadas às disputas já citadas entre Canadá, Estados Unidos, Rússia, Dinamarca e Noruega, por reivindicação de territórios marítimos na região, parece difícil imaginar que os conflitos potenciais simplesmente acabaram. com a resolução desta questão específica.

Entretanto, é de grande alento para o mundo assistir a mais um processo de negociação de conflitos sendo resolvido pacificamente nesta região tradicionalmente marcada por grandes disputas. Afinal, o fim desta contenda histórica pode facilitar futuros acordos envolvendo outras zonas árticas disputadas.

Para os povos do Hemisfério Sul, é interessante acompanhar este tipo de caso ocorrido no extremo Norte não apenas pelo interesse acadêmico ou diplomático em processos de negociação que chegaram a uma resolução pacífica em torno de conflitos por territórios marítimos. Interessa também porque no Atlântico Sul assistimos recentemente à ampliação das disputas envolvendo a região petrolífera localizada na Zona Econômica Exclusiva das ilhas Malvinas, cuja posse continua sendo reclamada pela Argentina, com amplo apoio dos países sul-americanos. Além disto,  existe um grande potencial para futuras disputas envolvendo regiões similares em torno da Antártida, cuja resolução negociada e pacífica continuará sendo vital no futuro, especialmente para evitar soluções simplistas e unilaterais, impostas pela força por alguma grande potência extra-regional.

Para assistir ao vídeo clique em: http://www.youtube.com/watch?v=OyRJxHKuwXI

Referências

AVILA, Fabrício S.; MARTINS, José Miguel Q.; CEPIK, Marco A. C. (2009).“Armas estratégicas e poder no sistema internacional: o advento das armas de energia direta e seu impacto potencial sobre a guerra e a distribuição multipolar de capacidades”. Contexto Internacional, vol.31, n.1, p. 49-83. Rio de Janeiro, Brasil.

NUNES, Carlos (2009). “O Árctico e a Exploração de Recursos Energéticos: Potencialidades e Riscos”, da Sphera: Informação Internacional, Maio 2009, <http://www.dpp.pt/pages/files/Arctico.pdf>

REKACEWICZ, Philippe (2007). Géopolitique de l’Arctique : la course pour les ressources, Le Monde Diplomatique, 19/10/2007. <http://www.cartografareilpresente.org/IMG/pdf/map-arctic.pdf>

O Estado de S. Paulo, “Rússia e Noruega encerram disputa territorial no Ártico”, Estadão Online, 27/03/2010, <http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,russia-e-noruega-encerram-disputa-territorial-no-artico,543692,0.htm>

O Estado de S. Paulo, “Rússia quer criar força militar especial para o Ártico”, Estadão Online, 27/03/2009, <http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,russia-quer-criar-forca-militar-especial-para-o-artico,345867,0.htm>

2 comentários

  1. Este artigo foi publicado na edição de Maio do Jornal de opinião “Pare O Trem”:

    “Rússia e Noruega fecham acordo sobre zona petrolífera disputada a 40 anos no Mar de Barents”
    http://pareotrem.com/8-edicao/internacional/


  2. “… zona disputada A 40 anos” é um atentado ao idioma. Para ser jornalista não é preciso saber português?



Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: