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Geração de energia, emprego e renda com a produção de biocombustíveis na Amazônia

4 de março de 2009

 Revista Época

04/03/2009

Lucros com ação social na floresta

 

Como a agropalma, maior produtora de óleo de dendê da América latina, está reinventando seu negócio para reduzir o impacto socioambiental na amazônia – e assim atender às novas exigências do vigilante mercado internacional

Por Aline Ribeiro, de Tailândia (PA) fotos Luiz Maximiano

Com uma foice colocada na ponta de uma haste de alumínio, funcionário da Agropalma corta um cacho da palmeira de dendê, na região de Tailândia, no Pará. Cada cacho pode pesar até 25 quilos

As margens de uma rodovia esburacada no interior do Pará, a 220 km de Belém, um vilarejo de 5 mil habitantes é o cenário perfeito para um daqueles filmes nacionais que exploram a temática da miséria. A Vila dos Palmares, como é chamado, ganhou o aspecto de uma autêntica favela plantada no meio da Amazônia. Nos cortiços, em vez de banheiros, há fossas no chão. O esgoto passeia a céu aberto por ruas sem asfalto. Na estrada ao lado, a PA-150, caminhões sem condições mínimas de segurança circulamcom carregamento ilegal de madeira surrupiada da floresta. O povoado de Palmares surgiu há 27 anos, quando a Agropalma, maior produtora nacional de óleo de dendê, alojou-se na região atraindo milhares de nordestinos e paraenses em busca de emprego. Quase três décadas depois, faturou R$ 649 milhões no ano passado, mas tem uma batata quente na mão. Não é mais aceitável, aos olhos vigilantes do mercado internacional, que os negócios de uma companhia estejam associados a um caso de caos social como a Vila dos Palmares. Para conquistar status de responsável e a aprovação de clientes engajados na causa socioambiental, a Agropalma terá de se reinventar. “Não estamos fazendo porque somos bonzinhos, mas porque somos inteligentes”, afirma o engenheiro Marcello Amaral Brito, principal executivo da Agropalma. “As empresas que não se redesenharem vão ficar fora do cronograma futuro dos negócios.”

Veja a galeria de imagens dos trabalhadores da Agropalma

Ouça o podcast com os bastidores da reportagem

Sozinha, a Agropalma responde por 75% da produção brasileira de óleo de dendê, que vende para as indústrias alimentícia, cosmética e química. O óleo de palma, como também é conhecido, tem as mais variadas aplicações: é base de hidratantes e óleos corporais, utilizado no processo de fritura de batata e na fabricação de massa de biscoitos. Cerca de 15% dos volumes produzidos nas cinco unidades de extração no Pará são exportados para países europeus e para os Estados Unidos – mercados cada vez mais sensíveis às questões socioambientais. Desde que acordou para o assunto, a Agropalma vem se empenhando no aperfeiçoamento de processos e produtos para se aproximar das práticas de menor impacto ambiental. Já obteve oito certificações – três de gestão, quatro relativas à agricultura orgânica e uma de “comércio justo”. Foram investidos R$ 5 milhões em tais programas. Neste ano, a Agropalma vai enfrentar um desafio ainda mais ambicioso: obter da Roundtable on Sustainable Palm Oil (RSPO, ou Mesa Redonda do Óleo de Palma Sustentável), organização de renome internacional criada para promover o crescimento sustentável da produção do óleo de palma, um atestado de que também zela pelo meio ambiente e pelas comunidades no entorno de seu negócio.

 

 
A Agropalma desenvolve um programa social de agricultura que emprega 185 famílias da região e gera uma renda média mensal de R$ 1,7 mil para cada uma. Com a iniciativa, a empresa pretende ajudar a frear o desmatamento, pois afasta as pessoas de atividades que devastam.

É por isso que melhorar a qualidade de vida da população de Vila dos Palmares tornou-se uma prioridade da companhia. Tão importante quanto dotar o vilarejo de infraestrutura e saneamento básico é prover fontes de geração de renda, educação de qualidade, segurança, saúde. Mas isso requer também a presença do Estado.

Os problemas sociais espalham-se. “Aqui, quando a pessoa não mata, arranca a mão”, diz um funcionário da Agropalma. “O motivo? Mulher, cachaça ou mato [maconha].” Na semana em que a reportagem de Época NEGÓCIOS esteve na região, cinco meninas, entre 10 e 13 anos, foram encaminhadas a Belém para fazer teste de aids. Recorrente em grande parte dos municípios do Norte do país, a prostituição infantil é um flagelo também em Vila dos Palmares, que funciona como ponto de descanso de viajantes e caminhoneiros que transportam madeira ilegal.

O povoado conta com 85 bares – e só quatro escolas. “As escolas ficam na frente dos bares”, diz João Meirelles, presidente do Instituto Peabiru, contratado pela Agropalma para desenvolver um projeto social. “Sabemos que as mães com mais condição financeira mandam as filhas, assim que fazem 12 anos, para a casa de parentes fora da vila. É uma forma de mantê-las afastadas da prostituição infantil.”

A Agropalma desenvolve um programa social de agricultura que emprega 185 famílias da região e gera uma renda média mensal de R$ 1,7 mil para cada uma. Com a iniciativa, a empresa pretende ajudar a frear o desmatamento, pois afasta as pessoas de atividades que devastam a floresta

A Agropalma desenvolve um programa social de agricultura que emprega 185 famílias da região e gera uma renda média mensal de R$ 1,7 mil para cada uma. Com a iniciativa, a empresa pretende ajudar a frear o desmatamento, pois afasta as pessoas de atividades que devastam a floresta

A colaboração de parceiros experientes tornou-se indispensável na resolução de questões delicadas como as enfrentadas pela Agropalma. Daí a contratação do Peabiru, uma organização conhecida por batalhas contra as mazelas sociais na Amazônia. Durante seis meses, um funcionário do instituto morou próximo à vila para acompanhar de perto a rotina das pessoas que vivem na área de influência da companhia.

Listadas as prioridades, a entidade começou, em janeiro passado, a implementar uma série de ações em Palmares, todas voltadas para o fortalecimento da consciência de cidadania dos moradores. Esse tipo de trabalho ganha importância por causa do baixo grau de instrução que prevalece entre os moradores da vila. São trabalhadores que acordam por volta das 5 horas da madrugada e seguem até a fazenda da Agropalma – distante cinco quilômetros da vila –, onde cumprem uma jornada de oito horas no corte dos cachos das palmeiras, que chegam a pesar 25 quilos. É de onde sai a matéria-prima que vai virar óleo. Diante disso, o primeiro passo do Peabiru é implementar no povoado os princípios da chamada Agenda 21 – um documento aprovado na Eco92 que funciona como um facilitador para que os cidadãos fiquem cientes de seus direitos.

O segundo será reivindicar da prefeitura de Tailândia, responsável por Palmares, condições mínimas para o desenvolvimento local. “O poder público está ausente na região e parte da culpa é a falta de organização social local”, diz Meirelles. A outra tarefa do grupo é coletar dados da comunidade, de acordo com as diretrizes do Global Reporting Initiative (GRI), organização com sede na Holanda que dá orientações a empresas para a elaboração de relatórios de desempenho econômico, ambiental e social. A iniciativa possibilitará uma visão mais clara da situação atual da vila.

Trabalhadores da Agropalma, maior produtora de óleo de dendê da América Latina, na fazenda da empresa, no Pará. Sozinha, a Agropalma responde por 75% da produção brasileira de óleo de dendê. A empresa faturou R$ 649 milhões em 2008.

http://epocanegocios.globo.com/Revista/Common/0,,EMI62806-16642,00-LUCROS+COM+ACAO+SOCIAL+NA+FLORESTA.html

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